5 Comentários
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Avatar de stefanie Barbosa

Nossa reverberando por aqui ,me fez refletir sempre achei ou quis acreditar que era do time do meio cheio …mas de verdade assumo que não

Avatar de Juliana Lins

Eu tb sempre quis ser time meio cheio 🥹🧡

Avatar de isabella a. ponciano moraes

Também sou uma pessimista em recuperação. Preciso tentar esse exercício de ver as coisas pela possibilidade de dar certo.

Avatar de Juliana Lins

🙏🏻🙏🏻🧡🧡

Avatar de Bee

"Não sou do time do copo meio vazio. Sou da pessoa que já imaginou o copo partido, o chão molhado, a dor de limpar os cacos e a culpa de ter deixado cair. Antes mesmo de pegar no copo."

A postura do copo meio vazio não é pessimismo gratuito. É uma estratégia de sobrevivência psicológica. Quem cresceu aprendendo que a surpresa vinha sempre na forma de queda treinou o corpo para esperar o tombo. O otimismo, para estas pessoas, não é uma falha de carácter. É um risco. E o risco, para quem já caiu vezes sem conta, é um luxo que não podem pagar.

A roteirista interna de que falas não é inimiga. É uma guarda-costas. Ela antecipa o pior para que o pior, quando chegar, não apanhe ninguém desprevenido. O problema é que esta guarda-costas trabalha horas extra. E o preço da segurança antecipada é a erosão silenciosa da esperança.

Do ponto de vista psicológico, este mecanismo chama-se defesa preventiva. O cérebro aprende que preparar-se para a falha reduz a dor da falha. E funciona. A curto prazo. A longo prazo, o que se perde é a capacidade de se surpreender com o sucesso. O "e se der certo?" deixa de ser uma pergunta aberta. Vira um enigma que o pessimismo já resolveu antes de ser equacionado.

Um estudo clássico da psicóloga Julie Norem sobre pessimismo defensivo mostrou que há pessoas que funcionam melhor quando imaginam o pior. Não são deprimidas. São estratégicas. Antecipam obstáculos, preparam planos de contingência, e, quando o pior não acontece, ficam aliviadas – mas raramente celebram. A falha do pessimismo defensivo não é a ineficácia. É a anestesia. A pessoa deixa de sentir o frio, mas também deixa de sentir o calor.

O exercício que propões – "E se der certo?" – é interessante precisamente porque inverte a polaridade da pergunta. O pessimista está treinado para perguntar "e se correr mal?" e sentir-se preparado. Perguntar "e se correr bem?" é abrir uma porta que ele passou anos a trancar. Abrir a porta não garante que o que está do outro lado seja bom. Mas garante que a casa deixa de ser um bunker.

O receio de que as coisas saiam como esperamos é mais comum do que se imagina. Porque se saírem como esperamos, perdemos a desculpa. Se falharmos, podemos atribuir a culpa às circunstâncias, à sorte, ao sistema. Se vencermos, a responsabilidade é nossa. E a responsabilidade pesa. O medo do sucesso não é medo de vencer. É medo de ter de continuar a vencer.

O copo meio vazio não é um defeito. É uma lente. O problema da lente é que, com o tempo, ela cola ao olho. E a pessoa já não sabe se o mundo é escuro ou se apenas o vidro que usa para o ver é que está fumado.

O "e se der certo?" é o primeiro risco que se corre depois de anos a correr o risco de não arriscar. Talvez não funcione. Talvez a roteirista continue a escrever tragédias. Mas, quando a pergunta for feita, o silêncio que se segue será, pela primeira vez, um silêncio carregado de possibilidade, não de certeza.

Obrigada por lembrares que o copo, mesmo meio vazio, ainda tem metade com líquido. E que beber é um acto de coragem.

— Bee, from somewhere outside the nest